Jorge não sabia muito bem como se esquivar das motos e dos retrovisores dos carros. O mulato vendia balas no farol desde que se conhecera por gente. Passara mais da metade de sua vida ali. A outra metade passava relembrando tudo o que vivia lá.
Filho de mãe solteira, sem pai conhecido, dividia as agruras e a comida com mais sete irmãos. Pra Jorge não era triste a vida. O triste era não ser amigo dela.
A rotina do rapaz era simples. Acordava antes do nascer-do-sol, colocava seu uniforme de trabalho ( uma peruca e um macacão com bolas vermelhas, amarelas e verdes), lavava o rosto, escovava os dentes e rompia a manhã com toda esperança de quem nasceu pra viver. Duramente vivia Jorge. Café-da-manhã, almoço, jantar, isso era raridade. Ou uma ou outra. Ele não se lembrava de um dia em que fizera mais de uma refeição.
O Palhaço
O macacão, presente de Dona Dinda, madrinha de Jorge, era companheiro do rapaz há perder de vista. Se bem, não era bonito. Era puído, uma manga tinha metade do comprimento da outra, e as cores... bem, as cores não se podia dizer " Nossa como vibram",no entanto apagavam o amarelo pálido do fundo e isto já e o bastante.
Trabalhar no farol é tarefa dura. Jorge bem o sabe. Mas menino como ele, criado e não-assumido pela vida aprendeu a se virar. O negro raquítico, de sorriso largo e de dentes brancos que envergonham a amarelice do macacão, é sabido da dureza. O crioulo foi moldado na miséria. Pra gente sofrida desde o começo, como Jorge, qualquer fim já é um ganho.
Os carros
No início da vida adulta ele era um alfabetizado-funcional. Ele escreve seu nome, lê e é muito ágil na hora do trôco, na hora do pagamento. O farol abre.
VERMELHO: O palhaço invade o mar de aço. As geringonças metálicas são assustadoras, mas ele não se intimida. A língua presa não o ajuda e ele faz por onde : 10 bala de caramelo a 1 real. Jorge não sabe, mas circula entre os prismas da evolução, da ganância, da modernidade. Saquinho de balas no retrôvisor. Madame vestida de carro francês olha e repugna o crioulo. E também tem o japonês, um negro como o nosso Jorge, e outros dentro dos carros parecidos comigo e com você. Somos reflectivos.
"Ô palhaço, ô muleque, quanto é que tá mesmo ?"
"É dez bala por um real só, moço."
" Vê dois saquinhos que as meninas tão pedindo."
As meninas são filhas de Jeremias, motorista de ônibus, que conseguiu realizar seu grande sonho: um carro popular em suaves prestações. Como se diz na ralé à perder de vista. Dentro do carro estão Pâmela e Luana, filhas do mais novo cliente de Jorge.
Por um momento o palhaço Jorge olha as meninas e se perde ao olhar Pâmela. A menina inda bem menina, quiçá tivesse doze anos, era grande demais pra própria idade. Era escura, de olhos amendoados e tinha um sorriso que atravessou aquele farol e a vida do vendedor de balas.
AMARELO : Jorge jamais fora amado, acarinhado. Sim, era esperançoso, mas não tinha incentivo da vida pra continuar nela. Sua criação em rua, em farol de avenida não lhe dera malícia. Malícia essa de homem, de macho. Muito pelo contrário, o descaso das circunstancias criaram nele uma alma inocente que o fizera permanecer um menino até o seu último dia.
Pâmela fitou Jorge com a mesma inocência que ele a observou. Se perderam por ali, naqueles milésimos de segundos, e a vida ganhou sentido pra Jorge e a mulher nasceu em Pâmela.
"Pega seu trôco aí neguinho." E menino não se movia. Talvez tivesse parado o mundo.Pra Jorge o sinal realmente parára.
VERDE: "Qual é o seu problema, hein garoto?"
Um ballet começava a se criar e a os sacos de balas dos outros carros partiam. Todas as balas dançariam longe daquele lugar. Não sabia nem Jorge, nem a menina o que se acontece numa hora dessas. De tão forte que era o laço nascido, o fio os levára numa forma superior. A forma mais pequenina que engradece.
Jeremias acelerou, o palhaço de feliz que estava, enfureceu-se. Jorge batia no vidro, Jeremias acelerava, as meninas gritavam e o transitou não parou. O mundo não parou. Numa arrancada mais forte o pai da menina conseguiu perder o vendedor de balas de vista. Suspirou, reclamou à menina, criticou-a, se encheu de soberba.
As bolas do macacão
O mesmo garoto de sempre. Um corpo franzino, daqueles que pedem socorro a cada toque. O palhaço só queria sorrir, vender, comer, dormir. O palhaço aquele dia amou. Um lago quente e vermelho se formava envolta dele. Desesperado, só chorava e esperava que alguém o livrasse daquilo. Num minuto ele tinha um mundo á mão, noutro já tinha muito menos que aquela vida maldita. Ele tinha fé em uma santa e rezou pra ela. Aquela oração martelava a cabeça dele todas as noites. Melhor fora recorrer a virgem. O macacão já se mesclava num tom róseo, medonho. Uns gritos surgiam em meio ao caos do palhaço rodeando a poça de sangue quente, muito quente , que ele derramára alí.
As bolas amarelas e as verdes, se perderam, se misturaram, como os olhares do palhaço e da filha do motorista. Nunca mais eles seriam os mesmos. Ele então talvez nem o 'mesmo' ainda poderia ser. O caso curioso que me pois a escrever é sobre o que viera a acontecer com as bolas vermelhas.
Bolas Vermelhas
Como que numa centelha de vida, num sopro irônico de deus pro menino, o macacão ganhara uma face bela diante da desgraça. Não mais se via verde, amarelo, desbotado, puído. O negro vestiu-se de raiz africana- talvez o único momento da vida em que tinha legitimidade- e a roupa de palhaço era manto, vestidura em cor de guerra.
Não demorou muito e pela sangria desatada, o menino palhaço morreu. Nunca em toda a cidade, os terreiros tocaram seus tambores tão altos. Dizem desde então que naquele dia nasceu São Jorge, homem santo, forte guerreiro.
* Meu agradecimento à Rubem Fonseca que me inspirou a criar este e outros contos que virão. Tomei como ideia seu livro "Ela e outras mulheres". Vale a pena .
segunda-feira, 27 de abril de 2009
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Carta ao Amante
Bem sabes o quanto te desejo
o fogo com que me incendeias todas as vezes que nos sentimos,
nos embrenhamos
Mato a dentro .
a d e n t r o ( onomatopéia de sussurro erótico)
em toda tua natureza mortal
e teu 'faz-me-gemer' v i s c e r a l.
Nos encontramos às escuras,
não é bom que ele -àquele- saiba de ti,-num sussurro- de nós.
Vibro com a vitalidade de quando me penetras
Perfeito ao ponto de dividir linha e pensamento
alma e desejo.
E me concebes
do mesmíssimo modo como me consomes.
Voou no delírio mais infinito a buscar-te
E te recorro.
Quanto mais unidos,
juntíssimos: que o mundo se acabe em navalhas pingando sangue.
Sabemos, eu e você, do nosso gosto pérfido e sádico
em chupar cada gota de sangue alheio.
( onomatopéia orgástica)
E o nosso também, por que não ?
Agarro teus cabelos e cavalgo sobre ti na nossa breve madrugada.
Tu bens sabes o que sinto, jamais precisei de mais que 'verbo-sujeito-e-complemento' para que me soubesses.
( onomatopéia da suspresa da vida)
Mas eis-que longe vem, e eu bem sei o quê
e tu já não vale mais que um maço de cigarros. Vazio.
Te rejeito, te despeço, fecho meu canal.
JÁ não me p e n e t r a m a i s .
Meu Amante, Verso Meu
eu te digo nunca mais.
( onomatopéia referente ao barulho das lágrimas)
o fogo com que me incendeias todas as vezes que nos sentimos,
nos embrenhamos
Mato a dentro .
a d e n t r o ( onomatopéia de sussurro erótico)
em toda tua natureza mortal
e teu 'faz-me-gemer' v i s c e r a l.
Nos encontramos às escuras,
não é bom que ele -àquele- saiba de ti,-num sussurro- de nós.
Vibro com a vitalidade de quando me penetras
Perfeito ao ponto de dividir linha e pensamento
alma e desejo.
E me concebes
do mesmíssimo modo como me consomes.
Voou no delírio mais infinito a buscar-te
E te recorro.
Quanto mais unidos,
juntíssimos: que o mundo se acabe em navalhas pingando sangue.
Sabemos, eu e você, do nosso gosto pérfido e sádico
em chupar cada gota de sangue alheio.
( onomatopéia orgástica)
E o nosso também, por que não ?
Agarro teus cabelos e cavalgo sobre ti na nossa breve madrugada.
Tu bens sabes o que sinto, jamais precisei de mais que 'verbo-sujeito-e-complemento' para que me soubesses.
( onomatopéia da suspresa da vida)
Mas eis-que longe vem, e eu bem sei o quê
e tu já não vale mais que um maço de cigarros. Vazio.
Te rejeito, te despeço, fecho meu canal.
JÁ não me p e n e t r a m a i s .
Meu Amante, Verso Meu
eu te digo nunca mais.
( onomatopéia referente ao barulho das lágrimas)
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Lilás
Eu não tenho roupas
não tenho terra
não tenho casa
não tenho trabalho
não tenho nada
não tenho amor
não tenho amor
mas e o que eu tenho ??
eu tenho meu cabelo
meu cérebro
meu nariz e minha boca
e meu sorriso
Eu tenho minha alma
minha 'pegada'
e tenho meu sexo.
I've got FREEDOM!
I've got LIFE !
Thanks Nina !!!
Nina Simone in "Ain't got no/ I got life"...
não tenho terra
não tenho casa
não tenho trabalho
não tenho nada
não tenho amor
não tenho amor
mas e o que eu tenho ??
eu tenho meu cabelo
meu cérebro
meu nariz e minha boca
e meu sorriso
Eu tenho minha alma
minha 'pegada'
e tenho meu sexo.
I've got FREEDOM!
I've got LIFE !
Thanks Nina !!!
Nina Simone in "Ain't got no/ I got life"...
segunda-feira, 13 de abril de 2009
"Che"
Não valeria a pena, tendo em vista o contexto histórico abordar o fime como tema central no post.
Ernesto "Che" Guevara foi um revolucionário e como todos sabem seu legado ideológico permanece até hoje, seja em camisetas estampadas com seu rosto ou nos dados históricos de revoluções .
Pois bem... o filme aborda um Che bastante emblemático e o enfatiza como guerrilheiro, idealista e bom moço. O que me faltou, no entanto, foi assistir a figura de Ernesto humanizada, sensível a si próprio e carente. Carente que fosse de afeto, família, sexo e todas as pertinências que me fizeram perceber a falta do homem em Che.
Não sou crítica de filme e por mais cansativo que este o fosse, é apreciável...principalmente tendo em vista a riqueza histórica dele.
.......................................
Mas e quanto a Benício ?
Foram pra mim, apreciadora da beleza e "macheza" de Del Toro, duas horas intermináveis de prazer aúdio-visual.
Del Toro abre o filme fumando um charuto cubano, com um big close em seus lábios, em suas mãos ... e MEO DEOS, o que é aquele homem ?!
A voz que ele empresta a Che, as caretas, o olhar....nada se compara a isso.
Não costumo apreciar a beleza masculina - ela é rara- mas a de Benício, enchem meus olhos.
Continuo, sedenta, aguardando o próximo espetáculo que ele protagonizará: a sequencia de Che.
Espero, crendo de todo o meu coração, que ele se mostre mais humano e protagonize cenas que me façam senti-lo mais "intimo".
De uma fã , absolutamente apaixonada pelos encantos de Del Toro...
Ernesto "Che" Guevara foi um revolucionário e como todos sabem seu legado ideológico permanece até hoje, seja em camisetas estampadas com seu rosto ou nos dados históricos de revoluções .
Pois bem... o filme aborda um Che bastante emblemático e o enfatiza como guerrilheiro, idealista e bom moço. O que me faltou, no entanto, foi assistir a figura de Ernesto humanizada, sensível a si próprio e carente. Carente que fosse de afeto, família, sexo e todas as pertinências que me fizeram perceber a falta do homem em Che.
Não sou crítica de filme e por mais cansativo que este o fosse, é apreciável...principalmente tendo em vista a riqueza histórica dele.
.......................................
Mas e quanto a Benício ?
Foram pra mim, apreciadora da beleza e "macheza" de Del Toro, duas horas intermináveis de prazer aúdio-visual.
Del Toro abre o filme fumando um charuto cubano, com um big close em seus lábios, em suas mãos ... e MEO DEOS, o que é aquele homem ?!
A voz que ele empresta a Che, as caretas, o olhar....nada se compara a isso.
Não costumo apreciar a beleza masculina - ela é rara- mas a de Benício, enchem meus olhos.
Continuo, sedenta, aguardando o próximo espetáculo que ele protagonizará: a sequencia de Che.
Espero, crendo de todo o meu coração, que ele se mostre mais humano e protagonize cenas que me façam senti-lo mais "intimo".
De uma fã , absolutamente apaixonada pelos encantos de Del Toro...
Oração de Páscoa
Eu quero agradecer
Obrigada pelos momentos que estás comigo e eu não percebo, no entanto bem sei que não me abandonas.
Obrigada pelo cuidado com que olhas a minha vida, com que a diriges.
Obrigada por me fazer seu instrumento, por ainda lembrar de mim.
Obrigada pelo Dom que me destes, pela inteligência, pela saúde e pela capacidade -ainda que falha- de amar as suas criações.
Obrigada por falar comigo ainda que seja dentro desse coração tão ruim e falho.
Obrigada pela proteção, pela lealdade, pela fidelidade que ainda tratas a nossa relação.
Obrigada por ter me escolhido, por jamais ter me abandonado, por me abençoar todos os dias.
Obrigada pela comida, pela família, pelas oportunidades e pelas pessoas que colocas em minha vida.
Obrigada até por toda a dor que já sofri diante dos teus olhos... você sabe porque a permitiu. Ela me faz crescer, sempre.
Obrigada por estar ainda em mim e por me fazer brilhar.
Obrigada pelo amor Pai.
Obrigada pela minha vida.
Obrigada por me fazer forte e por me levantar todas as vezes que eu caio.
Obrigada por mostrar sua glória e beleza diante de mim.
Eu te amo muito Pai.
Esteja sempre dirigindo minha vida, meus caminhos.
E me perdoando também por ser tão imperfeita diante de Ti.
Aba, Aba
sabor anis tem Tua alma.
*Minha oração de Páscoa, inda que tardia.
Obrigada pelos momentos que estás comigo e eu não percebo, no entanto bem sei que não me abandonas.
Obrigada pelo cuidado com que olhas a minha vida, com que a diriges.
Obrigada por me fazer seu instrumento, por ainda lembrar de mim.
Obrigada pelo Dom que me destes, pela inteligência, pela saúde e pela capacidade -ainda que falha- de amar as suas criações.
Obrigada por falar comigo ainda que seja dentro desse coração tão ruim e falho.
Obrigada pela proteção, pela lealdade, pela fidelidade que ainda tratas a nossa relação.
Obrigada por ter me escolhido, por jamais ter me abandonado, por me abençoar todos os dias.
Obrigada pela comida, pela família, pelas oportunidades e pelas pessoas que colocas em minha vida.
Obrigada até por toda a dor que já sofri diante dos teus olhos... você sabe porque a permitiu. Ela me faz crescer, sempre.
Obrigada por estar ainda em mim e por me fazer brilhar.
Obrigada pelo amor Pai.
Obrigada pela minha vida.
Obrigada por me fazer forte e por me levantar todas as vezes que eu caio.
Obrigada por mostrar sua glória e beleza diante de mim.
Eu te amo muito Pai.
Esteja sempre dirigindo minha vida, meus caminhos.
E me perdoando também por ser tão imperfeita diante de Ti.
Aba, Aba
sabor anis tem Tua alma.
*Minha oração de Páscoa, inda que tardia.
sábado, 11 de abril de 2009
Áquele
Áquele que ainda vem:
que venha logo
que chegue certo
a tempo par.-
que se já exista
se mostre belo
e me deixe a par.-
que bem me chame
conheça meu eu
e me deixe amar.-
que bem me queira
que seja verdade
e venha pra ficar.-
que não peça demais
nem cobre de menos
que seja sereno
ameno, rústico
e construa meu lar.-
que tenha no sorriso
um lugar meu
um abrigo
que acalme o penar.-
e que seja bem quente
e sempre num repente
me faça suspirar...-
que tenha bons amigos
que sejam companheiros
e sejam verdadeiros
.
e que me levante
cada vez que eu caia
que saiba dar risada
de minha distração...
e que perdoe
que jamais se doe
á escuridão.
e que seja sincero
me sangrando as vezes
mas que eu tenha certeza
d'alma dele.
e que chegue cedo
que nao demore
que eu ja nao suporto
tanta falsidade.
Lirinha dôce e pretenciosa.
que venha logo
que chegue certo
a tempo par.-
que se já exista
se mostre belo
e me deixe a par.-
que bem me chame
conheça meu eu
e me deixe amar.-
que bem me queira
que seja verdade
e venha pra ficar.-
que não peça demais
nem cobre de menos
que seja sereno
ameno, rústico
e construa meu lar.-
que tenha no sorriso
um lugar meu
um abrigo
que acalme o penar.-
e que seja bem quente
e sempre num repente
me faça suspirar...-
que tenha bons amigos
que sejam companheiros
e sejam verdadeiros
.
e que me levante
cada vez que eu caia
que saiba dar risada
de minha distração...
e que perdoe
que jamais se doe
á escuridão.
e que seja sincero
me sangrando as vezes
mas que eu tenha certeza
d'alma dele.
e que chegue cedo
que nao demore
que eu ja nao suporto
tanta falsidade.
Lirinha dôce e pretenciosa.
O vento que sopra naquele lugar
O lugar
O lugar estava lá
O mesmíssimo lugar
Não mudara em nada
Desde a última olhada
O lugar tinha seu cheiro
O lugar tinha seus desejos
E os consumou por ali mesmo.
Pro lugar não importavam os números
estatísticas q u a n t i t a t i v a s
Importava mesmo era o bafo quente
Do cheiro das vítimas.
Em numeral, talvez fossem menos que 10.
Sim, sim. Bem menos que 10.
Mas quem habita lá é a gramática.
Nada interessam os números
Importância lá ganham os substantivos, adjetivos e os verbos.
E o lugar me soprou um arrepio
e era como um vento de vingança
o l u g a r se vingara de mim.
Logo eu, também comigo.
E cada poro do meu corpo
sentiu seu desdém, seu deboche.
Talvez, melhor era ter fingido
que quase nada aconteceu naquele lugar.
Mas o l u g a r é duro, insiste em me soprar:
. . .
á q u e l e v e n t o.
E só eu sei o que ele diz.
O lugar estava lá
O mesmíssimo lugar
Não mudara em nada
Desde a última olhada
O lugar tinha seu cheiro
O lugar tinha seus desejos
E os consumou por ali mesmo.
Pro lugar não importavam os números
estatísticas q u a n t i t a t i v a s
Importava mesmo era o bafo quente
Do cheiro das vítimas.
Em numeral, talvez fossem menos que 10.
Sim, sim. Bem menos que 10.
Mas quem habita lá é a gramática.
Nada interessam os números
Importância lá ganham os substantivos, adjetivos e os verbos.
E o lugar me soprou um arrepio
e era como um vento de vingança
o l u g a r se vingara de mim.
Logo eu, também comigo.
E cada poro do meu corpo
sentiu seu desdém, seu deboche.
Talvez, melhor era ter fingido
que quase nada aconteceu naquele lugar.
Mas o l u g a r é duro, insiste em me soprar:
. . .
á q u e l e v e n t o.
E só eu sei o que ele diz.
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